Marcas chinesas de carros estão ampliando rapidamente sua presença na América Latina, afetando mercados antes dominados por fabricantes tradicionais. Em 2026, o Brasil registrou queda de 24,2% nas exportações de carros para a Argentina devido ao avanço das montadoras chinesas na região.
Quanto o Brasil perdeu no mercado argentino
Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações de veículos fabricados no Brasil recuaram 24,2% em comparação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados divulgados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
O mercado argentino, tradicionalmente o principal comprador de carros brasileiros, concentra quase a totalidade dessa retração.
Segundo o presidente da Anfavea, Igor Calvet, a Argentina responde pela quase totalidade da queda das vendas externas registrada no período, o que reforça a dependência histórica do setor brasileiro em relação a esse mercado específico.
Entre os países latino-americanos analisados pela entidade, apenas a Colômbia apresentou crescimento nas exportações brasileiras, enquanto os demais destinos também sofreram retração.
Concorrência chinesa se intensifica no país vizinho
De acordo com Calvet, a entrada acelerada de marcas chinesas no mercado argentino elevou o nível de disputa por consumidores e revendedores na região.
Com preços competitivos e portfólio ampliado, essas empresas vêm conquistando espaço que antes pertencia a fabricantes instalados no Brasil.
A retração do próprio mercado interno argentino também contribui para tornar o ambiente de negócios mais desafiador para as exportadoras brasileiras, já que a demanda local por veículos novos tem oscilado ao longo do ano.
Mercado interno brasileiro segue em expansão

Enquanto as vendas externas recuam, o cenário doméstico apresenta trajetória oposta.
A produção total de veículos no Brasil, somando automóveis, caminhões e ônibus, alcançou 1,89 milhão de unidades entre janeiro e agosto, um avanço de 8,5% sobre o ano anterior. Os emplacamentos, por sua vez, somaram 1,97 milhão de unidades no mesmo intervalo, alta de 18,4%.
Apesar do aquecimento do consumo interno, a presença chinesa também se faz notar dentro do próprio Brasil. Segundo Calvet, quatro dos dez modelos mais vendidos no país em agosto pertencem a marcas chinesas, número que evidencia a rapidez com que essas fabricantes vêm ganhando participação também em solo brasileiro.
Estoques elevados e benefícios tributários pressionam o setor
Parte do avanço das marcas chinesas no Brasil está ligada à prorrogação, até dezembro de 2026, da alíquota reduzida de imposto de importação para veículos montados no formato Completely Knocked Down (CKD), que em português significa “completamente desmontado”.
A medida estimulou o acúmulo de estoques de carros chineses no país, à medida que as empresas buscam aproveitar a vantagem tributária antes do fim do prazo.
Atualmente, o setor automotivo brasileiro mantém estoques equivalentes a 120 dias de vendas, grande parte deles vinculada a veículos de origem chinesa.
Esse volume tem levado as marcas asiáticas a adotar condições comerciais bastante agressivas para conquistar consumidores, prática que, segundo Calvet, deve permanecer ao longo do ano.
O dirigente também observou que boa parte do crescimento de veículos eletrificados classificados como nacionais ainda depende da montagem via CKD e Semi Knocked Down (SKD), que em português significa “parcialmente desmontado”, e não de produção totalmente local.
Para a Anfavea, avançar rumo a uma cadeia produtiva mais sofisticada continua sendo uma meta de longo prazo, ainda distante da realidade atual do setor.
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